Analise da atividade – Mountain Bike cross-country

Análise fisiológica do MTB-XCO

A melhora do desempenho esportivo do ciclista é constituída por diversos fatores que interagem entre si. Uma análise completa da atividade esportiva em questão é necessária para compreendermos quais são esses fatores e como podemos trabalha-los para atingir melhores níveis de desempenho.

Segundo Grappe, (2009), existem 6 eixos de trabalho para a melhora do desempenho em ciclismo:

– biomecânico,
– psicológico,
– técnico-tático,
– tecnológico,
– acompanhamento do treinamento do ciclista
– fisiológico,

Alguns eixos de desempenho são mais, ou menos importantes que outros, e para complicar ainda mais, o peso de cada um muda de uma pessoa para outra.

Devido a essa complexidade, é interessante seguir um treinamento especializado para a prática da sua modalidade esportiva, pois um treinador que enxerga o ciclista com olhos críticos geralmente consegue equalizar essas diferenças, resultando assim na obtenção de um melhor nível de desempenho.

Esse artigo trata dos padrões e necessidades fisiológicas para o desempenho na atividade Mountain Bike (MTB) de uma maneira geral, e do MTB-cross-country-olímpico (MTB-XCO) especificamente.

O MTB-XCO é uma das modalidades mais famosas de MTB e ela é caracterizada por um percurso (com descidas técnicas, estradas de terra, trilha estreitas, jardins de pedras entre outros obstáculos) de 5 a 9 km, no qual os mountain bikers realizam diversas voltas, geralmente durando de 1h45m a 2h30m, dependendo da categoria (www.uci.ch).

Metabolismo aeróbio

O MTB é uma modalidade esportiva que solicita enormemente o metabolismo aeróbio, é nessa modalidade que nós encontramos alguns dos valores mais altos de consumo de oxigênio máximo (Vo2max) dentre todas as outras modalidades esportivas. Um mountain biker de alto rendimento necessita de um valor de mais de 74ml/kg/min de Vo2max (1) se ele quiser disputar as primeiras posições, essa necessidade de alto Vo2max confirma uma forte predominância aeróbia no MTB.

Contudo, mesmo se falamos muito do Vo2max como marcador de desempenho, existem alguns outros indicadores mais fiéis e mais específicos à modalidade, o melhor exemplo é a “potência relativa”, calculada em watts e dividida pelo peso do ciclista + bicicleta. Estime a sua potência no site PedalCoaching.com clicando aqui.

 O peso do ciclista + bicicleta é muito importante no cálculo do Vo2max e da potência desenvolvida, por exemplo: peguemos 2 ciclistas com um Vo2max bruto de 4,5 litros/min e potência máxima bruta de 400 watts, porém um tem 75 quilos e outro tem 68 quilos, essa diferença é explícita na tabela I abaixo.

Tabela I

Estimatição da velocidade realizada aqui

É fácil de deduzir que quanto maior a potência relativa, maior será a velocidade de deslocamento do ciclista. Precisamos então levar em consideração as características antropométricas e de potência do ciclista para medir o desempenho.

Um valor médio das características dos mountain bikers de alto rendimento é mostrada na tabela II.

Tabela II

 Se observarmos a intensidade do exercício dentro de competições, os mountain bikers de alto rendimento passam em média 31% do tempo da corrida acima do LV2, 51% do tempo entre o LV1 e LV2, como na figura 1 abaixo (3).

Figura 1

Figura 1. Tempo X porcentagem da arequência cardíaca em competições

Esse longo tempo passado em alta intensidade, coloca em evidência a necessidade de uma grande capacidade de resistência do ciclista, tendo em vista que as competições alcançam facilmente 2 horas de duração.

Em conjunto com essa grande capacidade de resistência, sabe-se também que os LV1 e LV2 dos mountain bikers de alto rendimento se situam a uma alta porcentagem do Vo2max, 75-77% para o LV1 e 85-89% para o LV2 (3, 4).

Para facilitar a compreensão de como funciona a porcentagem dos LV1 e LV2, imaginemos 2 ciclistas com 60 ml/kg/min de Vo2max na tabela III, abaixo:

Tabela III

Estimação de velocidade realizada aqui. Foi utilizado o coeficiente de atrito de uma MTB no asfalto.

Segundo a tabela acima, se os dois ciclistas estiverem competindo juntos lado-a-lado, enquanto o ciclista B estará apenas começando a produzir lactato (LV1) a 35,1km/h, o ciclista A já estará atingindo o limite no qual a produção de lactato supera a sua metabolização, logo o ciclista A não suportará o mesmo ritmo do ciclista B.

Existem métodos de treinamento específicos para desenvolver a capacidade de utilização de Vo2max. Consulte o seu treinador para saber como e quando trabalhar essa qualidade!!

Metabolismo anaeróbio

O metabolismo anaeróbio é utilizado quando o exercício é realizado sem a necessidade de oxigênio para a produção de energia. Logo esses exercícios terão uma intensidade muito alta e são muitos específicos à modalidade praticada. Eles devem ser feitos com muita precaução, por isso é importante de se trabalhar esse tipo de exercício sob a supervisão de um treinador qualificado.

Ficou claro mais acima no texto que o metabolismo aeróbio é muito importante para o desempenho do mountain biker. Mais os pontos chave das competições, de MTB-XCO principalmente, são as largadas em alta intensidade, assim como subidas íngremes (curtas ou longas) e descidas técnicas.

Logo, uma solicitação não negligenciável do metabolismo anaeróbio é necessária para poder desenvolver uma grande potência de pedalagem durante curtos períodos necessários para: fazer uma boa largada, passar as subidas íngremes, fazer retomadas de velocidade e sprints no final da corrida (5). Existem até provas de que o MTB-XCO tem características de exercício intermitente devido às oscilações de 60% de potência durante uma competição (6).

A largada de uma competição de MTB-XCO deve ser feita em alta intensidade porque o ciclista precisa se posicionar bem no começo da corrida, não ficando assim preso no congestionamento dos single-tracks. Por conta disso, a frequência cardíaca medida na primeira volta de uma competição é mais alta que nas voltas que seguem (3, 6).

Outro fator importante a ser considerado são as contrações musculares isométricas repetidas, que são necessárias para controlar a bicicleta nos trechos técnicos da pista e também para absorver as trepidações (7,8).

Segundo a literatura científica, nós sabemos que os mountain bikers tem um potência anaeróbia 7,1% maior que os ciclistas de estrada, esse fato mostra a importância de ter uma alta potência anaeróbica desenvolvida (9).

Todos esses fatores descritos acima sugerem que existe uma contribuição importante do metabolismo anaeróbio para satisfazer as necessidades energéticas do MTB-XCO.

Conclusão:

Precisamos lembrar que o desempenho no MTB está ligado a diversos fatores que interagem entre si. Referente ao fator fisiológico, pode-se dizer que existe a necessidade de ter o metabolismo aeróbio e anaeróbio desenvolvidos simultaneamente, essas duas qualidades estão ligadas, quer dizer que sem um metabolismo aeróbio bem desenvolvido, não é possível ter o anaeróbio bem desenvolvido, e vice-versa (9).

Enfim, existe até um cálculo da proporção ideal entre esses dois metabolismos, ele é calculado da maneira seguinte:

Proporcao

A proporção ideal se situa entre 40 e 45%. Uma proporção inferior a 40% significa que a potência aeróbica está subdesenvolvida, uma proporção superior a 45% significa que a potência anaeróbica deve ser trabalhada (8).

Existem métodos de trabalho para desenvolver cada um dos fatores de desempenho descritos no texto, o seu treinador é quem deve saber como e quando o trabalho de cada fator deve ser realizado.

Espero que vocês tenham gostado do artigo, não hesitem em colocar comentários ou enviar questões. Obrigado por ler e até o próximo artigo

Referências bibliográficas:

1 – Lee H, Martin DT, Anson JM, et coll. Physiological characteristics of successful mountain bikers and professional road cyclists. Journal of Sports Sciences 2002 ; 20(12) : 1001-1008.

2 – Impellizzeri FM, Marcora SM. The physiology of mountain biking. Sports Medicine 2007 ; 37 : 55-71.

3 – Impellizzeri FM, Sassi A, Rodriguez-Alonso M, Mognoni P, Marcora SM. Exercise intensity during off-road cycling competitions. Medicine and Sciences in Sports and Exercise. 2002 ; 34(11) : 1808–1813.

4 – Impellizerri FM, Rampinini E, Sassi A, et coll. Physiological correlates to off-road cycling performance. Journal of Sports Sciences 2005 ; 23 : 41-7.

5 – Vaitkevičiūtė D, Milašius K. Physiological correlates of cycling performance in amateur mountain bikers. Educational Physical Training Sport 2012 ; 85 : 90-95.

6 – Stapelfeldt B, Schwirtz A, Schumacher YO, Hillebrecht M. Workload demands in mountain bike racing. Internation Journal of Sports Medicine 2004 ; 25(4) : 294-300.

7 – Seifert JG, Luetkemeier MJ, Spencer MK, Burke ER. The effect of mountain bike suspension system onenergy expenditure, physical exertion, and time trial performance during mountain bicycling. Inernational Journal of Sports Medicine 1997 ; 18 : 197–200.

8 – Wang EL, Hull ML. A dynamic system model of an off-road cyclist. Journal of Biomechanical Engeneering 1997 ; 110 (3) : 248-53.

9 – Baron R. Aerobic and anaerobic power characteristics of off-road cyclists. Medicine Sciences in Sports and Exercise 2001 ; 33(8) : 1387–1393.

10 – Grappe F. Cyclisme et optimisation de la performance. Paris : De Boeck ; 2009.

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